Acordei de um sonho e esta foi a primeira imagem: uma enorme mesa redonda de apresentação luxuosa e com várias pessoas sentadas. Lustres majestosos e candelabros intermitentes iluminam as taças de vinho. As porcelanas dispostas de iguarias onde os talheres de prata parecem refletir os sorrisos dos comensais. Existem também pirâmides de pratos e copos geometricamente apresentados.
Atarefados, os garçons rodeiam a mesa e dançam entre si. Servem bebidas, vinhos perfumados, comidas exóticas. Aprumados, usam nas suas vestes camisas brancas, engomadas na perfeição. Calçam, nos seus pequenos e delicados pés, sapatos pretos e cintilantes. Vestem calças pretas, vincadas, ao pormenor de um ângulo recto com noventa graus. Pitágoras, se vivo, ficaria radiante ao ver tamanha perfeição no desenho recto dos vincos que se notavam nas calças dos serviçais.
Que estupidez, pensei, realmente, esta não era a viagem que eu gostaria de fazer. Determinismo? Livre arbítrio? Não sei, a verdade é que a embarcação parecia levar a humanidade para outra realidade porque aquela que deixávamos para trás parecia não suportar mais os desígnios da vida. Esta parecia ser uma singularidade transcendente à nossa própria existência. Daí a razão de nos encontrarmos dentro desta embarcação.
Os empregados de mesa, eles e elas, esboçam sorrisos, ora cúmplices entre si, ora levianos para com aqueles que servem. Parece um ritual ancestral. Não que tenha alguma vez assistido ao vivo a um evento dessa natureza. Contudo, este momento em particular, fez-me lembrar aqueles documentários, que consumíamos nos nossos ecrãs num passado recente, imagens que retratavam rituais ancestrais de tribos remotas ou até mesmo aqueles documentários sobre a vida animal. A pantomina dos garçons, as suas vestes e cores, remetem à vestimenta branca usada no antártico pelos pinguins na época de acasalamento. Sentados, na mesa redonda, os convivas, degustam faustosamente o jantar. Cobertos nas suas nobres vestes, trocam brindes e gargalhadas falseadas, cujo tom quase se sobrepõe à orquestra. As notas musicais, tocadas na perfeição, pairavam no ar e misturavam-se com o ruído da sala. De forma abnegada, os músicos seráficos, progridem os seus olhares cegos sobre as pautas musicais imaginárias, gerando as melodias e os ritmos que embalam a embarcação. Nisto, alguém que estava sentado no canto da mesa perguntou numa voz assertiva:
— Ainda estamos a afundar?
Fez-se silêncio. Na sala, escutava-se apenas uma melodia leve. Entoada pela banda enfastiada (sabendo de antemão que as mesas redondas não têm cantos, perguntei-me se as elipses poderiam ter esquinas?). O meu pensamento, tal como o silêncio da sala, foi interrompido. Outra voz, de alguém, respondeu:
— Afundar? O que pensas tu? O que pensam vocês? O que pensamos, nós?
Estabeleceu-se uma ausência de som, as pessoas na sala continuavam a comer, agora de uma forma quase mecânica e sem ruído. Os empregados desapareceram nos confins da cozinha como se desvanecessem no porão do navio. A banda continuava a tocar um trote leve. Indiferente a tudo o que se passava, deixei-me estar. O barco oscilou. Bombordo, estibordo, bombordo, estibordo… Procurei manter a firmeza dos meus pensamentos, o que se tornava cada vez mais difuso à medida que a viagem prosseguia.
De repente, uma nova interrupção do silêncio. Desta vez, o cão, um velho labrador preto que estava deitado, latiu debaixo da mesa. Habitualmente sentado no mesmo sítio diariamente, acabou por ser de novo provocado pelo jovem gato siamês com quem partilha o espaço. Sabichão e malandreco, o gato voltou a encorajar o instinto animalesco. O cão preto espirrou, um suspiro canino de sobrevivência e uf! Nesse instante, a minha mente volta a ser interrompida por outra voz humana que perguntou:
— Ainda estamos a afundar?
Houve gargalhadas. As vozes atropeladas voltaram a invadir o espaço, numa cacofonia que quebrou o ruído dos animais. Voltou tudo à normalidade e até os empregados regressaram à sala, trazendo e levando pratos, travessas, garrafas e copos. Desenvoltos, nos seus uniformes brancos e pretos, esboçando sorrisos, dançavam como se de pinguins da Antártida se tratassem, em época de acasalamento. Entre a confusão de ruídos, a música voltou a ressurgir, destacando-se e espalhando-se pelo espaço. A orquestra, alheia a tudo, tocava um tema melódico de cadência ritmada.
Sem surpresas, nenhum dos animais presentes pareciam ter sido afetados pelas vozes e palavras que naquele momento soaram na sala. Ocorreu-me de novo um pensamento. De facto, os animais não possuem a racionalidade humana. Contudo, os seus sussurros parecem por vezes repetir, ou talvez seja apenas da minha imaginação, as palavras pronunciadas pelos humanos. Como se se tratasse de um código animal, transcrito em onomatopeias que apenas eles entendem.
O navio trepidava. Pensei novamente que este não era um dia comum.
O gato, guiado pelo instinto felino, conhecia as rotinas, saúde, gostos e desgostos do cão. O labrador, apesar das suas cataratas, sentia as travessuras do gato e sabia muito sobre os seus truques infantis. Para o cão, tudo aquilo acrescentava algo à sua vida. Desde já, ambos aceitavam pacificamente a coexistência. O cão sábio parecia entender a gramática felina e quem sabe ajudá-lo a encontrar novas formas dinâmicas de ver o mundo. Por que não? Tudo indicava que os olhos do cão estavam realmente a sofrer de cataratas ou algo do género, levando-o quase à cegueira. Tendo em conta a sua idade não seria de admirar. O jovem gato, como uma piada, gostava de tocar as patas ao redor do rosto do cão, equivalente a um murmúrio provocador. Tirava partido da falta de visão do cão, sabendo de antemão que o cão tinha uma audição e olfacto perfeitos. E, por assim dizer, desencadeando os seus instintos caninos que despertavam os felinos. Por hábito, os bichos acabavam sempre e com frequência numa dança entre os dois animais. Um jogo perfeito entre gato e cão. As patas brincalhonas do gato envoltas no focinho do cão, a sua agilidade, rapidez e desprendimento, despertavam no labrador as suas mais profundas emoções caninas, se é que elas existem.
A harmonia na sala é de novo interrompida… Deu-se início à dança animal, invisível e ancestral, que talvez só eles mesmo compreendessem. Desta vez, e uma vez mais, o gato atacou o cão e repetiu o mesmo papel, fazendo sons felinos que se confundiram com as notas do violino. Voltou a criar-se um momento de tensão entre os humanos que estavam sentados à mesa. As brincadeiras matreiras dos animais tornavam-se incomodativas para todos. De repente, a pôr ordem no caos, uma voz humana autoritária ordenou:
— Silêncio!
O tempo quase parou. Lentamente, na surdina, voltaram a escutar-se algumas notas de piano esbatidas e perdidas na navegação.
Os animais comportam-se de maneiras estranhas, pensei.
Na cabine luxuosa, um aquário albergava peixes coloridos, alheios ao caos. Um barulho alto interrompeu a melodia da orquestra, assustando o gato. Debaixo de água, os peixes mantiveram-se impassíveis. O siamês fugiu numa corrida desajeitada, embatendo em tudo pelo caminho. Os humanos, perturbados pela confusão, afastaram as cadeiras, permitindo que o gato escapasse. A música desvaneceu-se, seguiu-se uma tranquilidade estéril.
Entretanto, a embarcação continuava a sua viagem pelo desconhecido, transportando a humanidade para um novo mundo. A viagem parecia ser longa, onde o prazer ora incentivado, ora incomodado por trepidações da embarcação ou por animais espevitados que interrompiam a harmonia da refeição. O cruzeiro navegava ondulante pelo espaço estelar a caminho do infinito.
A música recomeçou na cabine principal, alegre e vibrante. As travessuras dos animais prosseguiram sem interrupção. O gato, agora seguro, olhou para a mesa e para os humanos petrificados. Viram não um, mas dois gatos: um assustado e outro relaxado. O gato, ignorando os olhares, lambeu a pata e saiu da sala, passando por uma porta oscilante, que abria e fechava, num vai-vem que parecia pautar o ritmo viagem. Os humanos, após o incidente, regressaram às suas refeições, comendo e bebendo com entusiasmo. A festa continuou, mas a consciência do naufrágio persistia. Uma colher ao cair no chão relembrou-os da implacável força da gravidade. A força que tentávamos escapar. O peso da Humanidade navegando o vazio do cosmos engolida por um buraco negro.
A mesa redonda ficou, entretanto, em silêncio. Uma pergunta hesitante ecoou na cabine:
— Será que este barco vai, realmente, atravessar o buraco negro e salvar a humanidade? Será que existe, realmente, uma forma de escapar à gravidade e criar um mundo melhor?
Um vazio, a cabine estava imóvel, petrificada e a mise en place mantinha-se intacta. O afamado silêncio regressou. O velho cão começou a lamber-se, imitando o gato. Os humanos permaneceram calados, indiferentes aos acontecimentos. Os peixes dentro do aquário, respiravam bolhas de ar e continuavam os seus movimentos, submersos, absortos e longe de tudo. Alguém à mesa voltou a criar o som, servindo uma taça de licor. Um ruído agudo e sinistro de gelo a partir ecoou, como se quebrasse o vazio da nossa realidade. Como um iceberg a partir, o gelo do copo estalou com o contacto do líquido natural. A voz firme anunciou:
— Saúde.
O navio tremeu ligeiramente, mas tudo parecia normal. Absorvemos de forma religiosa o líquido servido. O cão parou de se lamber, e uma voz suave perguntou:
— O gato está morto ou vivo?
A equação de Schrödinger foi invocada e as gargalhadas encheram a sala. Os humanos fundiram-se num balão de alegria desvanecendo-se em silêncio. O velho labrador, livre de ameaças, rodou e acomodou-se debaixo da mesa, pronto a dormir. O barulho de fundo pareceu entrelaçar-se com o sono do cão e uma aura de quietude expandiu-se pela sala. Na mesa, ninguém parecia importar-se ou estar presente. Os movimentos e as respirações eram cada vez mais dispersos e distantes. O nevoeiro do silêncio abarcou o momento. Juntos, o cão e o gato, tal como fractais, diminuíram e multiplicaram-se, abraçados ao infinito. Espalharam no chão os seus pêlos como se tecessem um colorido tapete persa que saía do tear. O tapete entrelaçado como se fosse feito de partículas quânticas que se tocam à distância.
Estarei a delirar, perguntei-me. Abracei a singularidade do momento, pois entrávamos no horizonte do buraco negro. Assim mostrava a bússola que estava pendurada na parede da cabine, a substituir o habitual lugar do relógio. As coordenadas apontavam a norte, o que queria dizer estarmos cada vez mais próximos do nosso destino. Bastava atravessar o buraco negro. Alguém, da tripulação, entrou na sala e disse secamente — acabamos de entrar no horizonte — saindo a seguir pela mesma porta oscilante, que abria e fechava ao ritmo da viagem. O gato ausentou-se, a porta rangeu e pela primeira vez fechou-se sem bater.
Uma voz voltou a quebrar a quietude:
— Sim, ainda estamos a afundar, mas o amor prevalecerá. Essa é a essência do ser.
O gato regressou, e o velho labrador suspirou; o jantar continuou a ser servido — uma miríade de sabores e cores. O gato e o cão partilharam o mesmo prato. De alguma forma diferentes, mas semelhantes ou similares, pensei.
Enquanto isso, na magnífica cabine do navio, que afundava lentamente no buraco negro, o manjar infinito do conhecimento transbordava sobre a mesa. Um ciclo a dissipar-se, um eco ensurdecedor. Voltei a pensar, interferência do buraco negro, talvez o som do ADN a conectar moléculas e bactérias, garantindo a continuidade da vida. Entropia?
Outro pensamento cruzou a minha mente. Somos o universo, e eu sou apenas o observador. A escuridão envolveu-me, e comecei a desaparecer. O meu corpo derreteu-se na escuridão, e senti vontade de dormir. Uma pequena luz brilhante apareceu ao fundo do túnel. Eu atravessei para o infinito, para o outro lado.
Acordei numa praia estranha, a água verde, as árvores vermelhas, a areia amarela e o céu lilás. Uma brisa quente acariciou-me o corpo, e o oceano estava calmo. Toquei na areia, fechei os olhos e senti-me insignificante, grande e pequeno, como um grão de areia, como uma bactéria, uma molécula, um átomo. Libertei os meus sentidos no vazio, no vórtice, no infinito. A vida poderia começar de novo num novo universo. Quem sabe numa nova galáxia que irá albergar um novo planeta. Novos seres, um mundo novo ao qual iremos chamar planeta Terra. Uma última imagem: azul e nuvens brancas. A bom porto chegámos. O último pensamento que tive antes de desvanecer na tranquilidade da vida e do cosmos. A génese da vida; afinal o Universo somos nós…
