Não havia nenhuma particularidade que distinguisse o bar de outros tantos locais de diversão noturna que fazem parte da mesma rua. Empregadas filipinas e chinesas enfadonhas, bancos desconfortáveis de verga, iluminação económica a fazer lembrar as privações da Segunda Guerra Mundial. Ouvia-se música repetitiva sobre bitches de Miami. Quase colada à vitrina que dá para a rua principal vislumbrava-se uma mesa de snooker, já com idade de ter não uma, mas duas ou três reformas acumuladas, na companhia de insetos errantes à procura de sangue nas veias dos mais incautos.
E assim a conheci, nas linhas turvas da noite, num total excesso de velocidade para as íris terrestres conseguirem acompanhar. Ou não fossem já duas da manhã. Seriam três? Quatro? Não é importante a hora, embriaguez não usa relógio de pulso. Foi um barulho ensurdecedor, a sua chegada abrupta, ao bom estilo motard Harley Davidson. Estacionou no local onde é suposto estarem apenas carros iguais a todos os outros, de cores e formas idênticas. Nunca, realço o nunca, se esperava uma mulher numa mota de tons negros, imponente, feita de suores mecânicos, a estacionar por aqueles lados, provocando o desrespeito e o caos na tribo dos automóveis. Ouviu-se o ranger de porcas e parafusos apertados até ao limite das ferramentas e do metal. Ela tinha um aspeto de animal incontrolável, que não respeita as mais elementares etiquetas de estrada. Antes de desligar o motor, ela deu mais um ar da sua insolência, acelerou a mão direita em direção ao infinito e ouviu-se o roncar do motor a dizer: “sou um cavalo selvagem, não aproximar, cowboys only”. A mota concordou e relinchou como um solípede no Texas de 1877 em fim de tarde, com um sol semi-adormecido e alaranjado por detrás desenhado.
Não que houvesse um local de estacionamento, uma mota em tons escuros ou cavalos e cowboys, visto ela estar apenas sentada no fim do bar a encharcar-se em vodka; mas no meu pensamento, que havia perdido horas e mais meias horas em diálogos próprios do lado escuro da lua, a aparição dela transportou-me para fora dali, das entediantes conversas de bar. Acalmou-me ao mesmo tempo, pois eu, antes da sua chegada estava quase a sacar o meu revólver e a disparar sobre o que quer que fosse. Só não sabia por onde começar, estava indeciso entre as garrafas de álcool contrafeito chinês, que causam uma dor de cabeça atroz no dia seguinte, empoleiradas em cima do balcão; ou se disparava na perna direita da empregada mais antipática que há memória na rua de todas as antipatias. Provavelmente tem a vida que merece, a antipatia existe no achar que temos mais direitos na vida do que a vida nos dá, mas um pouco de chumbo no seu joelho ou na sua coxa daria mais sentido ao que disse anteriormente: cada um tem o que merece, nem que seja uma perna repleta de chumbo. Tudo isto foi uma efémera miragem, pois, o aparecimento dela fez-me esquecer o futuro violento e a bala no álcool falsificado, ou em alternativa, na perna da empregada. Foquei-me no presente, deixando para trás os cavalos e os cowboys, que são mais apropriados para os livros de História.
Encarei-a, pois antes disso estaria provavelmente a olhar para mim. O álcool traz sempre alguma improbabilidade às certezas. Ela era difícil de decifrar e transmutou para um pensamento distante. Escondeu-se atrás do sol, que, como se sabe, por sua vez jazia escondido havia várias horas atrás das próprias estrelas. Vislumbrei-a como uma pequena deusa, no chão nu, hostil e agreste da lua. Foi uma lufada de ar fresco na terra inóspita, agreste e de cor acinzentada que habito – má palavra – é o planeta em que sobrevivo. A dada altura o seu corpo desapareceu, só senti o seu sangue quente vulcânico dentro do meu olhar, a fitar as minhas pupilas. Parecia gelada e imóvel exteriormente, mas dentro dela o sangue fervilhava sem parar, à espera do Cowboy que a levasse despida para o calor do Texas. Reparei que pensava em si e, ao mesmo tempo, em como escapar deste pedaço de terra encharcado em líquidos de qualidade duvidosa. Tragou o seu líquido russo, polaco ou dum lugarejo qualquer no norte da Europa para alimentar mais a sua fantasia e não mais parou de emborrachar-se em devaneios, até serem tantos a não haver mais ordem possível naquele caos onírico. Interrompi-a da sua confusão mental que mais parecia uma teia de aracnídeos.
— Reparei que estás a pensar em tudo menos no aqui e no agora.
— Também reparei que estiveste a noite toda a olhar para mim.
— É verdade, prefiro estar a olhar para ti do que para mim.
— Chegaste fora de horas. Hoje já não estou em mim, não vais encontrar nada. O que pensas que estás a ver, já não existe, o sol já se pôs.
Continuei a falar com ela, mas entediou-me, estava mais interessada em desidratar-se e em esquecer-se de si mesma. Passado um pouco, a luminescência da sua visão foi-se apagando como um fósforo sem lenha. Não foi só ela que se apagou, eu também deixei-me levar para a terra do esquecimento, o mundo sem nós próprios, esse sítio estranho e distante, mas próximo. De repente, já não havia cowboys nem Texas, só a realidade, a conversa mundana, o olhar casual, o inseto errante. Peguei no meu copo, bebi o que restava e despedi-me sem deixar de antes dizer:
— Somos o lado escuro da lua.
