O Tao não é só um panda animado…

Às vezes, um texto pode ser como uma viagem de mochilão: saímos sem rumo. 

Abrimos a página em branco e apanhamos o primeiro pensamento para qualquer lado. O importante é sair, deitar as primeiras palavras e deixar que o comboio nos leve, corrente abaixo. 

Vencemos a inércia do medo de que seja uma perda de tempo porque a alternativa é ficar na plataforma a vê-lo passar – e isso, é perda de vida. Vamos, já estamos a ir, e aos poucos, cada vez mais longe, fica a voz da censura.

Deixámos a ditadura da produtividade, finalmente, e entregamos-nos ao prazer de escreviver, explicitamente renunciando qualquer objectivo.

É tão fácil! 

Como nos dias em que o sol já não tem aquele fulgor de verão sahariano e nos rendemos ao abraço de um banco de jardim sem sombra e nos deixamos ficar ali, a regozijar na existência. 

Como nas noites em que entregamos as ancas ao ritmo dos tambores, deixamos o baixo reverberar nas costelas, massajando os órgãos como ronrom e abrimos as asas para que a melodia jorre termalmente no cérebro. 

De pequenos prazeres se faz uma grande viagem. Claro que podíamos trocar as lentes e ver as durezas do percurso, os acidentes ou incidentes ou delinquentes emocionais que comprometem temporariamente a nossa mobilidade, a nossa liberdade, a nossa criatividade. 

Aqui houve fogo, trágico e destrutivo. A prevenção está em não fazer demasiadas coisas que nos tirem do presente. A des-sincronização com as marés da intuição levou à seca e o fogo alastrou como sarna em pensão de fronteira. 

Mas, extinto ainda há pouco, já nascem apontamentos de verde nas cinzas. A imaginação sempre ganha e agora o solo é fértil. Como não se ser optimista quando olhamos para o exemplo da mãe natureza, estóica mas generosa, elegante e opulenta, dura e suave, completa na sua dualidade?

O Tao não é só um panda animado…

Últimos artigos